Alergia alimentar em adultos contraria o senso comum que costuma associar essas reações à infância. Por exemplo, uma criança que reage ao leite, ao ovo ou ao amendoim.
Só que o sistema imunológico segue mudando ao longo da vida inteira, e uma parte considerável das alergias alimentares começa depois dos 18 anos, inclusive depois dos 50 ou 60.
Estudos populacionais recentes mostram que cerca de metade dos adultos com alergia alimentar desenvolveu pelo menos uma delas já na vida adulta.
Isso significa que o camarão de sempre, a castanha do lanche ou a maçã do café da manhã podem, em algum momento, passar a provocar urticária, inchaço nos lábios ou aperto na garganta em quem nunca teve problema nenhum com eles.
Neste post, você vai entender por que o corpo muda de comportamento, quais alimentos costumam estar envolvidos, como diferenciar alergia alimentar em adultos de intolerância e o que fazer a partir do primeiro episódio.
Por que o sistema imunológico muda de ideia?
Alergia alimentar acontece quando o sistema imunológico passa a identificar uma proteína do alimento como ameaça e produz anticorpos IgE contra ela.
Na próxima exposição, esses anticorpos disparam a liberação de histamina e outras substâncias inflamatórias, gerando os sintomas.
Esse processo de sensibilização pode acontecer em qualquer fase da vida. Alguns fatores ajudam a explicar o surgimento tardio:
- mudanças hormonais, como gravidez e menopausa, que alteram a regulação do sistema imune;
- infecções virais ou gastrointestinais que modificam a barreira intestinal;
- uso prolongado de medicamentos que reduzem a acidez do estômago, permitindo que proteínas cheguem menos digeridas ao intestino;
- exposição a novos alérgenos ambientais, como pólen, com reação cruzada a alimentos;
- picadas de carrapato, no caso específico da alergia à carne vermelha.
Também existe um cenário mais simples em que a pessoa já era alérgica, mas só teve contato com o alimento, pela primeira vez, na vida adulta.
Isso é comum com frutos do mar, castanhas e frutas exóticas.
Os alimentos mais comuns na alergia alimentar em adultos
Na infância, os campeões são leite, ovo, trigo e soja, e boa parte das crianças supera essas alergias com o tempo.
Na vida adulta, o perfil muda. Os alimentos mais associados a alergias que começam depois dos 18 anos são:
- crustáceos e moluscos, como camarão, lagosta, caranguejo, lula e mariscos;
- peixes;
- amendoim;
- castanhas, nozes, amêndoas e avelãs;
- frutas e vegetais crus, ligados à síndrome de alergia oral;
- trigo, em especial na alergia ao trigo dependente de exercício;
- carne vermelha, na alergia à alfa-gal.
Síndrome de alergia oral
Quem tem rinite alérgica a pólen pode começar a sentir coceira e inchaço leve na boca ao comer maçã, pêssego, cereja, kiwi, melão ou cenoura crus.
Isso acontece porque as proteínas dessas frutas são parecidas com as do pólen, e o sistema imune confunde as duas.
Os sintomas costumam ficar restritos à boca e à garganta, e o mesmo alimento cozido geralmente é bem tolerado, porque o calor desmonta a proteína.
Alergia à alfa-gal
Essa é uma das descobertas mais curiosas da alergologia. Depois da picada de certos carrapatos, a pessoa pode desenvolver anticorpos contra a alfa-gal, um açúcar presente na carne de mamíferos.
O resultado é uma reação alérgica a carne bovina, suína ou de cordeiro que aparece de 3 a 6 horas depois da refeição, o que dificulta muito a identificação da causa. Sintomas noturnos de urticária depois de um churrasco são um sinal clássico.
Sintomas: como reconhecer uma reação alérgica.
Os sintomas costumam aparecer em minutos até 2 horas depois de comer. Os mais frequentes são:
- urticária, vermelhidão e coceira na pele;
- inchaço de lábios, língua, pálpebras ou rosto;
- coceira na boca e na garganta;
- náusea, vômito, cólica e diarreia;
- coriza, espirros e chiado no peito;
- sensação de aperto na garganta, rouquidão e dificuldade para respirar;
- queda de pressão, tontura e desmaio.
Quando dois ou mais sistemas do corpo são afetados ao mesmo tempo, como pele e respiração, o quadro é chamado de anafilaxia.
Ela pode evoluir rápido e exige atendimento de emergência com adrenalina.
Alergia, intolerância ou outra coisa?
Vários problemas digestivos são confundidos com alergia alimentar em adultos.
A intolerância à lactose, por exemplo, é uma dificuldade enzimática de digerir o açúcar do leite. Ela provoca gases, distensão e diarreia, em intensidade proporcional à quantidade ingerida, e o sistema imunológico fica fora dessa história.
A doença celíaca é uma reação autoimune ao glúten, com lesão do intestino, mas segue um mecanismo diferente da alergia mediada por IgE.
Já a intoxicação por histamina, comum com peixes mal conservados como atum e cavala, imita uma reação alérgica, mas acontece com qualquer pessoa que coma o alimento contaminado.
Por isso, o diagnóstico precisa de investigação profissional. Cortar alimentos por conta própria pode levar a restrições desnecessárias, perda de peso, deficiências nutricionais e, em alguns casos, até a perda da tolerância a um alimento que antes era bem aceito.
Como é feito o diagnóstico?
O ponto de partida é a história clínica detalhada: o que foi comido, em que quantidade, quanto tempo depois os sintomas surgiram, se houve exercício, álcool ou uso de anti-inflamatório junto. Esses detalhes orientam quais exames pedir.
Os principais recursos são:
- teste cutâneo de leitura imediata, o prick test, que mostra a resposta da pele a extratos de alimentos em cerca de 15 minutos;
- dosagem de IgE específica no sangue, que mede os anticorpos contra alimentos suspeitos;
- diagnóstico por componentes, que identifica qual proteína do alimento causa a reação e ajuda a prever a gravidade;
- teste de provocação oral, feito em ambiente controlado, considerado o padrão-ouro para confirmar ou descartar a alergia alimentar em adultos.
Um resultado positivo isolado, sem sintomas compatíveis, indica apenas sensibilização, e a pessoa pode continuar comendo o alimento normalmente. A interpretação depende sempre do conjunto.
Tive uma reação e agora?
Se você suspeita que reagiu a algum alimento, anote o que comeu, fotografe os sintomas na pele e guarde a embalagem do produto. Esses registros valem ouro na consulta.
E, caso os sintomas envolvam falta de ar, inchaço na garganta ou tontura, procure emergência imediatamente.
A alergia alimentar em adultos tem diagnóstico e tem tratamento.
Quanto antes o alimento responsável for identificado, mais segurança e liberdade você recupera à mesa. Agende uma consulta com a Dra. Ênilis Abreu e faça uma investigação completa dos seus sintomas.
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